quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Sol do peito

Mantive as janelas fechadas no frio.
Cuidei de calafetar cada fresta.
Só caminhava com pantufas substanciadas,
e cobria as cobertas com cobertas,
como se acampasse em cima da cama.

Quando esse tempo passou, a morte
deixou de bafejar ameaças, e corri
com alegria em direção às portas
da alma na qual meu corpo se refugiara
por receio do sorriso no rosto do sol.

O sol tinha deixado um recado
na caixa antiga de correspondência,
um aerograma que assim dizia:
"Bati na porta da sua alma,
depois, bati em retirada."

"Venha me buscar, que a alma
de luz por mim parasitada
morreu, desabrigando um corpo inerte,
cuja única satisfação erótica
era poder fingir ter as rédeas".

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Baleia interior

Eu olho para uma planície intocada
que se estende até o limite do turvo,
e milhares tons de verde que se alternam
nos túneis de grama e flores e densidade
tornam-se inapagáveis nos favos da mente.

É por isso que eu posso cerrar os olhos
e contar ainda com o acolhimento
dessa extensão do instinto, muito embora
o espaço do sentir, mais seletivo,
toque o essencial, e perca o todo.

Da mesma forma, quando tua exuberância
mostra-se ampla de sequer caber em ti,
e os sentidos pulam para fora, enlouquecidos,
tentando dar conta de cobrir essa amplidão
mesmo reconhecendo-a de impossível remate,

quando isso acontece, cerro estes olhos e,
enquanto imagino que és tudo em minha volta,
envio um canto a ser captado a quilômetros
de distância de teu corpo, de teu vulto, de tua presença,
lá onde a planície que és verdeja ainda.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Permissões

O que eu tenho de melhor
nunca é visto a olho nu,
nem por olho que não nobre.

Até quem me saca de rabo de olho
já sabe que só me descobre
aquela que escolho.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Aspecto

Aquela rosa é tão bonita,
mas está morta,
assim como minha vida parece linda
vista de fora.

Ninguém escolheu para mim
fugir da treva.
Um dia me vi num caminho
- e ele me leva.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Drama

Eu posso atirar-me num olhar,
eu posso falar pra me mostrar,
eu posso tentar deixar no ar,
mas não sei conquistar.

Eu posso cismar, sondar, e até
eu posso saber se vai, se é.
Eu posso sentir se alguém dá pé,
mas não sei conquistar.

Eu posso ser bom pr'essa mulher,
eu posso dar tudo o que eu tiver,
eu posso ser mais do que ela quer,
mas não sei conquistar.

E eu sei que o momento vai passar,
e a voz no meu peito quer gritar:
"O amor, você sabe onde ele está!"

Sim, sei.

Mas não sei conquistar.

That's what men are for

Se eu estou sem paciência para afagos,
e não há boa vontade que resolva.
Se o mundo quer me ver bela e luzente,
mas nada há nesse mundo que me mova.
Se ando reclamando até das coisas
que foram sempre, e são, do meu agrado,
só você vai me manter na linha,
só você vai ficar do meu lado.

Se eu já não quero mais o que queria
há um minuto atrás, e fico brava,
se expludo nas palavras que arremesso
como um vulcão que expele a sua lava.
Se eu não consigo ver suas manias
sem me enervar como um galo de briga,
só você vai me encarar sem medo,
só você consegue que eu consiga.

Se eu choro por lembrança de outro dia,
ou por não modelar meu abdomen,
se sou, no meu estresse inconsolável,
o pesadelo mor de qualquer homem.
Se dou razões de sobra p'ra que o outro
duvide desse amor, do meu carinho,
só você pode me dar certezas,
só você me guia em meu caminho.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Acima de tudo

Sem dúvida a melhor
das coisas desta vida
é sexo com alguém
que você ama.

A segunda melhor
das coisas desta vida
é sexo com alguém
que você não ama.