Venceu a dor
ao regorgitar as passadas em falso
e polinizar guinadas.
Venceu a sociedade
ao apedrejar expectativas parasitas
com os cacos do último brio.
Venceu a vida
ao consolidar vã permanência
zombando das perfídias do acaso.
Venceu a morte
ao coligir fragmentos de um puzzle
que alguém anseiará terminar.
Só não venceu a arte.
Na arte, o parâmetro da vitória é indecidível
porque a batalha é contra os deuses de dentro.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
sábado, 20 de março de 2010
Direito inalienável
Quando encontro alguém ousado a ponto
de confiar em quem nunca viu antes,
de apostar contra toda a evidência,
de caminhar por searas obscuras,
de suportar a gozação do vulgo.
Quando encontro alguém forte o bastante
para enfrentar assédios discursivos
ao nadar contra a maré na tempestade.
Quando encontro alguém lúcido ou louco
a tal ponto de pender para o impossível,
mas certo de ouvir vozes de seu íntimo
e convicto de si como de nada mais.
Quando encontro alguém tão sem limites,
falho sem culpa, salto sem rede de proteção.
Eu também quero ser um ser humano.
de confiar em quem nunca viu antes,
de apostar contra toda a evidência,
de caminhar por searas obscuras,
de suportar a gozação do vulgo.
Quando encontro alguém forte o bastante
para enfrentar assédios discursivos
ao nadar contra a maré na tempestade.
Quando encontro alguém lúcido ou louco
a tal ponto de pender para o impossível,
mas certo de ouvir vozes de seu íntimo
e convicto de si como de nada mais.
Quando encontro alguém tão sem limites,
falho sem culpa, salto sem rede de proteção.
Eu também quero ser um ser humano.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Venha
Abra essa porta e você encontrará livros
guiando um neófito no mundo das ideias,
e talvez alguns rascunhos de percepções
menos nobres, mas passíveis de proveito.
Abra essa porta e você encontrará coisas
cujo valor em dinheiro bem aquém está do luxo,
e talvez alguns objetos nitidamente inúteis
cujo valor é dado pela permanência.
Abra essa porta e você encontrará música,
música das palavras entoadas sem discurso,
música dos suspiros, dos cansaços e dos prantos,
música de um violão que absorve qualquer ai.
Abra essa porta e você encontrará projetos
que desculpam-se de cara pela ausência de ganância,
mas que estendem-se no tempo do espírito insatisfeito
como se durassem desde o mesmo sempre.
Abra essa porta e você encontrará um tesouro
entre os destroços do homem que ainda vive na casa:
um coração deixado sobre a mesa da cozinha,
dois braços de cadeira abertos infinitamente.
guiando um neófito no mundo das ideias,
e talvez alguns rascunhos de percepções
menos nobres, mas passíveis de proveito.
Abra essa porta e você encontrará coisas
cujo valor em dinheiro bem aquém está do luxo,
e talvez alguns objetos nitidamente inúteis
cujo valor é dado pela permanência.
Abra essa porta e você encontrará música,
música das palavras entoadas sem discurso,
música dos suspiros, dos cansaços e dos prantos,
música de um violão que absorve qualquer ai.
Abra essa porta e você encontrará projetos
que desculpam-se de cara pela ausência de ganância,
mas que estendem-se no tempo do espírito insatisfeito
como se durassem desde o mesmo sempre.
Abra essa porta e você encontrará um tesouro
entre os destroços do homem que ainda vive na casa:
um coração deixado sobre a mesa da cozinha,
dois braços de cadeira abertos infinitamente.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Ruídos da urbe
Noticiário de TV informa agora
outra desgraça, e mesmas cartas do baralho.
Nas propagandas, propagando-se em disputas,
celebridades com sorrisos de espantalho.
Infelizmente navegar não é preciso.
Acesso a rede e mais do mesmo encontro, tonto.
Copio e colo, clico e teclo, arrasto e solto,
Chateio e blogo, e volto sempre ao mesmo ponto.
Navego o dial do meu rádio em desespero,
e o telefone toca, e é só um aparelho.
E a campainha toca, e é só um tagarela
botando a Fé em mim, e fé no meu dinheiro.
E os olhos fecham, porque a noite se aproxima,
e só então me sinto inteiro, e leve, e longe,
e enquanto a música da urbe estraga o clima,
eu sorvo a música do cosmos como um monge.
outra desgraça, e mesmas cartas do baralho.
Nas propagandas, propagando-se em disputas,
celebridades com sorrisos de espantalho.
Infelizmente navegar não é preciso.
Acesso a rede e mais do mesmo encontro, tonto.
Copio e colo, clico e teclo, arrasto e solto,
Chateio e blogo, e volto sempre ao mesmo ponto.
Navego o dial do meu rádio em desespero,
e o telefone toca, e é só um aparelho.
E a campainha toca, e é só um tagarela
botando a Fé em mim, e fé no meu dinheiro.
E os olhos fecham, porque a noite se aproxima,
e só então me sinto inteiro, e leve, e longe,
e enquanto a música da urbe estraga o clima,
eu sorvo a música do cosmos como um monge.
Low-tec
Tudo se transforma com grande velocidade.
Eu insisto em dormir até tarde.
Encurtam-se as distâncias no mundo globalizado.
Eu não sei o nome do vizinho aqui do lado.
Todos se maravilham com tanta transformação.
Eu morro de medo de avião.
O mundo está dinâmico, ágil e informatizado.
E eu ainda abotoo a camisa errado.
Eu insisto em dormir até tarde.
Encurtam-se as distâncias no mundo globalizado.
Eu não sei o nome do vizinho aqui do lado.
Todos se maravilham com tanta transformação.
Eu morro de medo de avião.
O mundo está dinâmico, ágil e informatizado.
E eu ainda abotoo a camisa errado.
sábado, 30 de janeiro de 2010
Airétaminta
O grande amor da minha vida
era de antimatéria.
Nós nos desintegramos
quando dei um beijo nela.
Mas nosso amor continua
como emissão de energia,
atravessando a via láctea
dia após dia.
era de antimatéria.
Nós nos desintegramos
quando dei um beijo nela.
Mas nosso amor continua
como emissão de energia,
atravessando a via láctea
dia após dia.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Sentudo
- Levante e peça! - dizia,
se alguma coisa queria,
minha vontade. Contudo
vontade alheia mandava,
quando me inquieto pegava:
- Senta já e fica mudo!
Quem dera que força bruta
gerasse a gana de luta
de um espírito marrudo!
Mas, não. Já virei piada:
de tanto sentar sem nada,
virei por certo "sentudo"...
se alguma coisa queria,
minha vontade. Contudo
vontade alheia mandava,
quando me inquieto pegava:
- Senta já e fica mudo!
Quem dera que força bruta
gerasse a gana de luta
de um espírito marrudo!
Mas, não. Já virei piada:
de tanto sentar sem nada,
virei por certo "sentudo"...
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