sábado, 9 de março de 2013
Terra de gigantes
Um homem que não tinha a perna esquerda
deixou suas muletas de lado,
ergueu a pedra gigantesca
e arremessou contra o vidro do carro.
E outro homem gigantesco, bruto e
distraído, falava ao celular.
Pensaram: "Com a polícia". Mas não era.
Era o Amor que não queria escutar.
O gigantesco estrondo foi sentido
para além nos menestréis em revoada.
Na tela da TV o jornalista e o presidente.
Ninguém sabia de nada.
domingo, 3 de março de 2013
Espírito forte
Eu já quis a inteligência do gênio
Pra ganhar prêmio e cartaz
Eu já quis a habilidade do líder
Que sabe, quer, fala e faz
Eu já quis falar a língua do craque
Com o sotaque do gol
Hoje eu quero ter o espírito forte
E dar suporte ao que sou
Eu já quis a grana preta dos bancos
Sem trancos e sem suor
Eu já quis os prêmios de loteria
E um dia um dia melhor
Eu já quis o lucro fácil e canalha
Que outra gentalha embolsou
Hoje eu quero ter o espírito forte
E dar suporte ao que sou
Eu já quis a silhueta perfeita
A pinta nobre de ator
Eu já quis a voz de Elis e de Ney
Quando teimei ser cantor
Eu já quis ter o talento dos astros
Ou mesmo lastro sem show
Hoje eu quero ter o espírito forte
E dar suporte ao que sou
Eu já quis ter o poder dos tiranos
Para os meus planos de bem
Eu já quis poder ser quisto por visto
E até poder ser ninguém
Eu já quis a reverência dos frágeis
Que a falsa imagem gerou
Hoje eu quero ter o espírito forte
E dar suporte ao que sou
Eu já quis ter a volúpia das feras
Nas priscas eras de horror
Eu já quis tudo o que alguém quer um dia
Mas que jamais conquistou
Eu já quis até querer mais que quero
Mas a vontade tardou
Hoje eu quero ter o espírito forte
E dar suporte ao que sou
Hoje eu sei que sou mais interessante
Em meus rompantes de não
Hoje eu sei que na ambição que faltava
Estava viva a lição
Hoje eu sei que o desafio começa
Onde a promessa murchou
Hoje eu quero ter o espírito forte
E dar suporte ao que sou
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Luva de Pelica
I
As intempéries levam teus bens
E tudo que mantiveste, prendeste, retiveste
Como se o destino dera.
Pessoas espertas levam tuas receitas
E produzem riquezas superiores
Às que forjaste de teus atributos.
Tuas opiniões despencam no outono
Sem completar a maturidade de um ano
Porque sempre há mentes mais argutas.
Tuas conquistas abarrotam o sótão,
Mas nenhuma delas paga as contas do feijão,
Porque quadros na parede não trabalham.
Teu próximo pode ter tantas qualidades
Quanto o próximo de teu próximo,
E as tuas são simplesmente as de outro
próximo na conta.
Não te fies na vitória fácil
Porque a vitória sobre ti será tão fácil
quanto,
E as forças do fado sempre querem revanche.
É, amigo. Essa é a História.
Essa é a condição de estar e não ter.
Essa é a ferida egótica que a vista recusa.
Há milhões de maneiras de mostrar
Cabalmente à consciência arrogante
O tamanho real do ser que és.
A experiência da humilhação não tarda,
Seja pela mão que apedreja e aponta,
Seja pela transitoriedade da condição humana,
Seja pela dança dos sucessos e fracassos,
Seja pelo descalibrado da balança moral,
Seja mesmo pelo acaso, ou pelo tédio, ou
pela impossibilidade de assumir-se um a mais.
II
Tu talvez não saibas, mas a mais didática
E constrangedora operação de humilhação
Não vem da violência das palavras,
Não vem do temperamento autoritário,
Não vem da maledicência pura e simples,
Não vem da competição sem rédeas,
Não vem da sedução, da perspicácia,
Não vem do Mal, da dor, do soco, do azar,
Do ódio, do rancor, da crueldade:
Essa sanção devastadora e dura,
Essa sanção destruidora e inevitável
É aquela que te aplica a nobre alma,
Quando, sabendo do teu infinito de faltas
E de tua inapetência de saná-las,
Ainda oferta um peito aberto de perdão.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Na melodia
Considerando que a Literatura é a música das ideias,
Que a Poesia é a
música das palavras,
Que as palavras são
a música das letras,
Que as letras são a
música do ler.
Considerando que o Cinema é música das cenas,
Que as cenas são
música das formas,
Que as formas são
música do espaço,
Que o espaço é
música no caos.
Considerando que a
paixão é a música do impulso,
Que a vontade é a
música do instinto,
Que a bem-querença é
a música do intuito,
Que o amor é a
música do enfim.
Considerando que a
natureza tem harmonia,
Que a humanidade tem
compasso,
Que os indivíduos
têm timbre
Que a civilidade tem
tom
Considerando que a
música das células é o corpo,
Que a música das
buscas é o espírito,
Que a música dos
sonhos é a alma,
E a música das
músicas é o Todo.
Posso dizer, sem
tormentas:
Toda minha vida tem
sido
Dançar conforme a
música,
Rosto colado no
rosto do tempo.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Imo chamado sibilante
Falamos a mesma
língua
Quando gaguejamos.
Temos toda razão
Simultaneamente.
Nosso elo é o duelo
Sincero de essências,
Nosso embate de serpentes
Pela toca diminuta.
Pela toca diminuta.
Estaremos de acordo
Quando desacordados.
Venceremos nossos
erros
Quando um de nós não
os disser.
Pintados de tinta de
batalha
Da seiva volúpia
extraída,
Teremos pressa de
atualizar
A presa e o
predador.
Estalaremos, cada
qual,
com o estigma
devido.
Cada qual com o
gosto alheio
Da pele em qualquer
resultado.
E amanhã as cascas
das feridas
Serão estilhaços de
espelho.
Fomos feitos um para
o outro.
E os dois de nós
para o mesmo.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Ninharia
Você diz que seu poder é seu dinheiro,
Que é o primeiro a comprar tudo o que quiser,
A ponto de escolher entre o perfeito
E o qualquer.
Você diz que seu consumo não tem freio,
Mas, no fundo, o seu anseio lhe consome
A ponto de que, um dia, tendo tudo,
Você some.
Você diz que eu dou valor a ninharia
E que um dia vou pedir a sua ajuda.
A vida faz da brisa ventania.
Tudo muda.
Você diz que veste e come e bebe e ostenta
O melhor que a vida tem, mas é mentira.
O leite que eu tirei das minhas pedras
Ninguém tira.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Ida
Eu sou um andarilho
de um mundo diferente,
mas não estou sozinho,
cansei de ouvir falar
a voz condescendente
no caminho.
Saí de espessas matas,
descendo com suor
até os lagos brancos
que espelham a paisagem.
Subi colina reta,
passei num salto ao leito
vibrante em sons e vida
de um rio de rubras margens.
Ali foi que, primeiro,
ouvi a voz que guia
meus passos na certeza
da incrível travessia.
Eu sou um peregrino
de um mundo diferente,
mas não estou sozinho,
cansei de ouvir falar
a voz vibrante e meiga
no caminho.
De cima do penhasco,
eu vi um enorme vale
de súbito findando
na base das montanhas.
Rumei para adiante,
seguro e fascinado,
pequeno em frente ao belo
de proporções tamanhas.
A voz me veio clara:
perceba, sinta, e siga,
mas breve como a sorte,
que a estrada é sua amiga.
Eu sou um viajante
de um mundo diferente,
mas não estou sozinho,
cansei de ouvir a voz
pulsante, doce e quente
no caminho.
Pela planície lisa,
andei com confiança,
e até brinquei no seco
de um poço abandonado.
Mas logo à minha frente
topei com o desafio
de novo território
com mapa delicado.
Entrei, e a voz me disse:
- Esqueça tudo o mais.
- Os que foram tão longe
não voltarão iguais.
- Esqueça a segurança
da costumeira paz.
- Quem entra em meus domínios,
não voltará jamais.
Eu sou um viajante
de um mundo diferente
mas não estou sozinho,
eu ouço a voz ridente,
potente e sibilante
no seu ninho.
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