domingo, 19 de dezembro de 2010

Sobranceiro

- Eu quero ser amado -,
digo ao destino, cobrando
já resultado, sem quando.

- Eu quero saber tudo -,
digo ao Divino, irriquieto,
mente sem fundo e sem teto.

- Eu quero o meu caminho -,
digo, a ajuntar, sem meneios,
como adivinho dos meios:

- Dos méritos que quero,
não haverá qual me falhe.
O tempo é mero detalhe.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Chacoalhão

Eu estava preparado para apagar o pavio
e deixar correr as esperança num rio
que rasgasse a escuridão nalgum ponto.

Eu estava reclamando do Brasil,
com a fleuma de quem quase desistiu,
e os argumentos de um mimadinho tonto.

Eu estava querendo mandar tudo para a puta que o pariu,
quando um baque, um dilacerante assovio,
sequestrou meus sentidos de sopetão,

pedaços de solidão crestaram-se no vazio,
o trom da torre de marfim a sucumbir o cosmo ouviu:
teu amor dinamitou meu coração.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Antes de pedir sua intervenção

Eu sei que você me ama;
então, só peço socorro
se estou em real perigo.
Para ser abusado,
tenho um monte de amigo
calejado.

O desespero de amor é sagrado
e quase proibido.
É a força que move mares
quando tudo está perdido.

É um poder que não tem limites
porque, no fundo, não tem sentido.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Mundos

Quando eu olho para o mundo cão,
viro bicho e fico sem razão.

Quando eu oro por um mundo são,
peço a Deus que espalhe compaixão.

Quando eu ouço sobre o mundo além,
deixo a alma se embeber de bem.

Quando eu ando no mundo real,
tenho orgulho de ser anormal.

domingo, 25 de julho de 2010

O acaso não vai me proteger

Corolário, intuição? Convicção, déja vú?
Fatalidade, acidentário? Previsibilidade, bidu?

Como eu gostaria de dizer
que a bola de cristal bateu na trave,
no último dos segundos do segundo tempo!

Mas, ai!, que o juiz é ladino
no jogo jogado da vida.
Não tem mão de Deus no destino,
e nunca tem bola perdida.

domingo, 16 de maio de 2010

Papéis

O papel do meliante é incomodar você
e mais nada.
O papel do professor é corrigir você
e mais nada.
O papel do militar é controlar você
e mais nada.
O papel do jornalista é convencer você
e mais nada.
O papel do vendedor é alcançar você
e mais nada.
O papel do balconista é conquistar você
e mais nada.

Lugar de balconista
é atrás do balcão.
Lugar de vendedor
é atrás de você.
Lugar de jornalista
é no QG da redação.
Lugar de militar
é no QG.
Lugar de professor
é na sala de aula.
Lugar de meliante
é na jaula.

O papel do papel é limitar você.
Mais nada.

Lugar de papel
é no lixo.

Dom

Vejo o que está evidente,
não vejo o que estará.
Vejo o que o fígado sente
e o que o olho mandar,
mas perco o que a brisa me dá
de presente.

Somos todos médicos-loucos,
mas autênticos cegos-videntes
há poucos.