sábado, 11 de maio de 2013

Alfa e ômega



A primeiríssima das vezes
Em que houve Arte no Cosmos
Foi quando o Senhor, depois de criar
Tudo o que era necessário,
Criou ainda outras coisas,
Pelo prazer do próprio ato,
E viu Deus que eram belas,
E assim fez-se o raiar do dia.

A derradeira das vezes
Em que houve Arte no Cosmos
Foi quando o último vivente,
Na última galáxia da lista,
Estendeu os membros sedentos,
Suplicando não água nem luz,
Mas uma ideia sem nódoas,
para expirar sem sofrer.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Heráclito



Tudo que existe  retornará ao barro.
Tudo que existe retornará ao pó.
Tudo que existe se dissolve no ar.
Tudo que existe se corrompe.
Tudo que existe definha.
Tudo que existe queda.
Tudo tem um "até".

Apenas Deus sempre é perfeito,
Porque Deus não existe:

Deus é.



Não há nada que não sofra ação do tempo.
Não há nada que não sofra ação do outro.
Não há nada que não seja transitório.
Não há nada que não se transforme.
Não há nada que não pereça.
Não há nada que não mude.
Não há nada que não vá.

Apenas em Deus nada não muda,
Porque Deus não consiste:

Deus há.



Tudo e nada retornarão do tempo.
Tudo e nada sofrerão do pó.
Tudo e nada se corrompem.
Tudo e nada se transformam.
Tudo e nada definham.
Tudo e nada mudam, pois
Tudo e nada são.

Apenas Deus não é nem tudo nem nada,
Porque a existência pode ser delimitada,

Deus, não.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Subgestão



Quando as pessoas têm vergonha do que são,
o nome dado à máscara da força na gestão
é sugestão.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Almoço sem as estrelas



Restaurante,
Parede de espelho,
Aparelho de TV.

De frente pra mim,
De costas pro aparelho,
Penso comigo assim:

Não que eu seja tão bonito,
Mas que tem coisa bem pior,
Ah, eu acredito!

Assimilação de Nelson Cavaquinho



Quando piso em folhas secas,
Ouço o crep crep crep
Da decrepitude.

Na ilusão do lar conforto,
As pantufas no tapete
Soam blef blef blef.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Sem ver



Páginas-cortinas vão virando
Atabalhoadamente em função do vento.

Ninguém está sentado perto da janela
Olhando a janela de outro apartamento.

Ainda assim, a mão da ausência acena alegre
Um gesto nobre de desintegração.

Nenhum olhar não lê-vigia o mundo.
Mas uma voz alcança e abarca a solidão.

sábado, 9 de março de 2013

Terra de gigantes



Um homem que não tinha a perna esquerda
deixou suas muletas de lado,
ergueu a pedra gigantesca
e arremessou contra o vidro do carro.

E outro homem gigantesco, bruto e
distraído, falava ao celular.
Pensaram: "Com a polícia". Mas não era.
Era o Amor que não queria escutar.

O gigantesco estrondo foi sentido
para além nos menestréis em revoada.
Na tela da TV o jornalista e o presidente.
Ninguém sabia de nada.