quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Pedra e palito


O que eu dizia?
Na mão esquerda, um palito.
Nada mais, nada menos que um príncipe.
Na mão direita, uma pedrinha mais clara,
que era minha irmã mais velha de vestido.
Na crosta do quintal, meus cotovelos,
minha barriga inteira e minhas pernas estendidas,
tudo sujo de terra, até as roupas,
até o pescoço, até cansar da lenda.

O que eu dizia?
Na mão esquerda, um palito
pedindo a mão da pedrinha em casamento;
na garganta a imitação de voz de macho,
e a fácil feminina inflexão daquele "sim".
Na cabeça, um presente que o futuro preparava,
a casa de morarmos todos nós,
família da noiva, numa cidade em que as ruas
tinham quentura de asfalto e circulação distinta.

O que eu dizia?
Na mão esquerda, um pedaço de madeira
capaz de cutucar tudo no mundo,
e na direita, a pedra pronta
para o arremesso na distância do porvir.
No coração, qualquer vitória,
qualquer possível revelação de última hora,
qualquer milagre que ampliasse para muito
a extensão do encantamento no quintal.

Quem diria...
Na mão esquerda do tempo agora,
um controle remoto; na direita queda,
um aparelho celular; os cotovelos
recostados no sofá; barriga e pernas,
tudo sujo de preguiça; e os palitos
são não mais que meros fósforos; e as pedrinhas,
chuto. Sem cerimônia. Chuto.
As lamas fictícias e inodoras
do aparelho de tevê, quintal sem vida,
mantêm meu coração farto da única pobreza:
aquela em que tudo já foi dito e se acabou.