sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Ida


Eu sou um andarilho
de um mundo diferente,
mas não estou sozinho,

cansei de ouvir falar
a voz condescendente
no caminho.

Saí de espessas matas,
descendo com suor
até os lagos brancos
que espelham a paisagem.

Subi colina reta,
passei num salto ao leito
vibrante em sons e vida
de um rio de rubras margens.

Ali foi que, primeiro,
ouvi a voz que guia
meus passos na certeza
da incrível travessia.

Eu sou um peregrino
de um mundo diferente,
mas não estou sozinho,

cansei de ouvir falar
a voz vibrante e meiga
no caminho.

De cima do penhasco,
eu vi um enorme vale
de súbito findando
na base das montanhas.

Rumei para adiante,
seguro e fascinado,
pequeno em frente ao belo
de proporções tamanhas.

A voz me veio clara:
perceba, sinta, e siga,
mas breve como a sorte,
que a estrada é sua amiga.

Eu sou um viajante
de um mundo diferente,
mas não estou sozinho,

cansei de ouvir a voz
pulsante, doce e quente
no caminho.

Pela planície lisa,
andei com confiança,
e até brinquei no seco
de um poço abandonado.

Mas logo à minha frente
topei com o desafio
de novo território
com mapa delicado.

Entrei, e a voz me disse:
- Esqueça tudo o mais.
- Os que foram tão longe
não voltarão iguais.

- Esqueça a segurança
da costumeira paz.
- Quem entra em meus domínios,
não voltará jamais.

Eu sou um viajante
de um mundo diferente
mas não estou sozinho,

eu ouço a voz ridente,
potente e sibilante
no seu ninho.

sábado, 27 de outubro de 2012

Tese tesão


Levantar alguma hipótese
caída.

Desatar os vários textos
de uma linha.

Vincular-se a uma corrente
e abrir as asas.

Cultivar a autoridade
e desfrutá-la.

domingo, 21 de outubro de 2012

Caprichos



Qualquer casa organizada pelo amor de minha mãe
Qualquer filme de cinema visto em boa companhia
Qualquer linha de poema recitada com verdade
Qualquer conversa sem rumo fluindo entre companheiros
Qualquer lágrima enxugada pelos lábios da escolhida
Qualquer momento vivido que permita mais saber
Qualquer erro cometido em nome da lealdade
Qualquer escolha impulsiva nas ditaduras do "certo"
Define precisamente meu requinte de viver

sábado, 13 de outubro de 2012

Amostra


A semente abre
devagarinho;
pétalas incipientes se insinuam
para a doce luz
por alguns segundos.

Até que o meteoro tromba,
massacrante,
matando essa semente
e toda a metade do planeta
em que o espírito se atrevia.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Muitas vezes


Muitas ideias,
poucas palavras,
nenhum proveito.

Muitos caminhos,
poucas passadas,
nenhum percalço.

Muitas pessoas,
poucos amigos,
nenhum banquete.

Muitos fatores,
poucos quereres,
nenhum pecado.

sábado, 6 de outubro de 2012

Tanto

Feche os olhos,
conte até três.
Quando abri-los,
estamos namorando;

Pense em algo
com toda força.
Quando parar,
está bem na nossa frente;

Diga um nome
bem devagar.
Quando acabar,
eu também o pronuncio;

ainda.

sábado, 29 de setembro de 2012

Existencialista


O ato não está,
ninguém o localiza.
Mas não fica solto no ar,
nem brisa;
não estala na brasa a fritar,
nem cinza.

O ato não está,
mas firma seu lugar
na hierarquia:
do alto do abstrato da utopia,
é ele quem vai nos guiar
a pontaria.

sábado, 22 de setembro de 2012

Vitamina ser

Se o poderoso é cruel
e o cidadão é laranja,
já há remédio político:
a força de mãos calejadas
tem de espremer o laranja
até tirar ácido crítico.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O salto mortal


Adalberto trancou a porta do banheiro
para poder chorar copiosamente.
Eram em vão as tentativas de imitar
o salto mortal executado
por seus ídolos dos filmes de Hollywood.

Enquanto Adalberto chorava sozinho
homens proclamavam o ódio contra nações,
e nações devolviam o ódio em bombas.
Conspirações atingiram embaixadas mundo afora,
reações foram cobradas e rapidamente
posicionaram-se os líderes dos gigantes armados.
Pessoas saíram às ruas perdidas
pedindo desculpas pelo que não tinham feito,
mas as bombas que rugiam na queda inevitável
eram surdas.
Aqueles que ajudavam, arrependiam-se de ajudar
quando os ajudados tomavam seus parcos tetos
e expulsavam sem cerimônia suas famílias.
Os que odiavam armas eram poupados mais alguns segundos,
mas eram meros instantes antes que se afogassem na tragédia.
Armas químicas cruzaram o céu da metrópole,
e o sol nasceu na noite, e nasceu verde,
e uma chuva refrescava as peles derretidas
daqueles que imploravam pelo fim de seu martírio.
Mísseis derrubavam prédios sobre prédios,
e um a um todos os abrigos voltavam ao pó primário.
A cada acerto de mira
membros arrancavam-se de corpos e cabeças
despedaçavam-se em partículas de crânio
que há poucos segundos consciência comportavam,
e agora mal serviriam aos cães.
Mas nem os cães eram poupados, e na sangria atômica
de seus intestinos expostos ao calor de mil graus,
reconfortavam-se criaturas de esgoto (agora refúgio)
tingindo-se do sangue em chamas e da cor da vida em putrefação.

Quando Adalberto acabou de chorar
já não havia ruídos lá fora.
Ele abriu a porta e caminhou pelo que restava da casa,
firme e decidido, cruzou as poucas vias secas de chorume,
pisou nas poucas pedras não estraçalhadas das avenidas,
tomou cuidado de não tropeçar em nenhum dos corpos mutilados pelo chão,
e chegou à antiga quadra pública, agora sopa de destroços,
onde ainda se viam sombras com mãos erguidas e olhares desesperados.
Cerrou os olhos vermelhos, cerrou os punhos de raiva,
mirou um espaço vazio caminhável, deu dez passos para trás,
correu sentindo um arrepio subir à garganta,
saltou,
rodou no ar uma vez,
percebeu o completo do giro,
sentiu seus pés firmes no chão no retorno.
Perfeito!
Ele conseguira!
Agora, fazia parte de um grupo seleto;
agora, honrava todos os esforços de uma vida;
agora, era digno de ter um nome nos anais,
um exemplo de superação e autoestima.
Igualara-se aos heróis do mundo atual,
e, sabendo disso, emitiria
um atordoante grito de realização,
alegria, conquista, plenitude.

Pena que já não havia mais ninguém para ouvi-lo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Sete de setembro


Com tantos
irresponsáveis pelo mundo,
ser responsável pelo mundo
parece pura ficção.

No entanto,
pondero a coisa noutro nível:
respondo, amável, que é possível
que o nosso mundo fique são.

E eu tampo
meus sãos ouvidos ao cinismo,
à hipocrisia e ao pessimismo
dessa  galera sem noção

e encampo
nesta canção de amor gigante
a decisão de ir adiante
no meu projeto de nação.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Demeritocracia


Se esse rapaz continuar policiando seus impulsos
quando a fatia mais grossa é colocada à sua frente;

se insistir em dizer exatamente o que pensa
contra quem se acostumou ao canto safo das sereias;

se persistir no seu dever como algo inegociável
e mantiver a eviterna assiduidade e o compromisso;

se insistir em recusar as prostitutas e os subornos,
e as alianças de teor oportunista, e peitas tais;

se não deixar de ter orgulho do amor-próprio e do caráter
para afogar seus pundonores na piscina dos comprados,

serei obrigado a ter pena
das decisões que levaram
seu pobre barco ao naufrágio.

Esse rapaz lamentável
nunca será nada além
de um mero homem decente.

sábado, 11 de agosto de 2012

Perdurar


Música é prece
Curte-se sem pressa
Livros são portas
Abrem-se aos poucos

Quadros são pistas
Vistas de pontos
Filmes, espectros
de sonhos do peito

Estátuas são partes
pintadas do espaço
Danças são torpentes
Peças são dopantes

A arte é o mais potente
devagar do de repente:
sem rompante,
sem parar,
completamente.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

De faíscas e radares


A matéria de várias cores e matizes
passa despercebida no mundo.
De que adiantam energias intensas
quando as pessoas deixam radares de luto?
É como se todas as perguntas fossem jogadas no lixo
e o filme tivesse a mesma cena por quatro horas.
É como se o Davi já estivesse no mármore,
como se flores fossem robôs dos bem-te-vis.

Não há nada de perfeito num riso sem carne,
riso inflexível de fantoche fútil.
No livro aberto do estar-no-mundo,
é a sede, e não a água, que move os moinhos.
O olho que não adivinha, não vê.
O lábio que não beija, não saboreia.
A palavra que preenche espaços nada revela.

Eu ainda estou esperando o seu convite,
estou aguardando suas asas se abrirem
para o vento que evitam.
Não tema.
As faíscas sobrevivem ao assédio do bom senso,
as verdades pixam dúvidas em muros vigiados,
os bichos falam, os mares bradam,
as sombras ainda podem dançar.

Eu ainda estou esperando o seu convite.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Saúde



Eu ainda posso ver
o menino idealista,
com sangue irrigando a garganta,
neurônios e nervos saltantes,
não muito além deste peito,
não muito longe.

Eu ainda posso ser o que eu quiser.
A lua ilumina a estrada
mesmo quando o sol se esconde,
e a questão não é "quanto tempo?",
a questão é "onde?".

As vontades envelhecem,
as intenções se renovam.

E o corpo apenas responde.

domingo, 15 de julho de 2012

Laços e lastros


A minha jura de amor é um cafuné
Minha loucura de amor é estar presente
Meu amuleto de sorte é sua imagem
Meu compromisso reluz no meu olhar

Minha aliança é um abraço inesquecível
Fidelidade é estar sempre em meu melhor
Perder as horas falando sentimentos
Perder o rumo lembrando e rindo à toa

Meu coração é caixinha de surpresas
de onde salta, ridente e assustadora,
todos os dias, com sede e desespero,
a mesma força que busca por você

Não há promessas nos atos, nos carinhos
Não há cobranças, não há tapeação,
Apenas vínculos, íntimos, profundos
E o testemunho de Deus a eternizar

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O norte


Os críticos dizem
que na literatura
só existem dois temas:
amor e morte.

Isso se já se tem
a estrutura.
Isso se já se tem
um norte.

Mas eu vejo outra figura
no foco do holofote
nesse megashow,
que é a dúvida mais forte
e a certeza que segura:

afinal, quem sou?

domingo, 24 de junho de 2012

Segmentos


Eu já segui muitas vozes.
Não tenho arrependimento,
ainda que as vozes seguidas
hoje se esvaiam no vento:

autoridades atrozes
ou doces vozes de amor,
vozes de sim e de não,
de seja, e de seja o que for.

Mas se eu parar no momento
em que ouço vozes do vento,
o que ouço é uma voz costurada,

pois cada pedaço da estrada
do pensamento no nada,
nada, nada, é um seguimento.

sábado, 23 de junho de 2012

Decadância

Modas de dez anos antes
eram decadantes,
nunca decadentes.

Mas, dez anos depois,
as mesmas modas são os dois.

Simmento

Não ser quem sou
é simples:
é só pensar
no cetro.

Mas ser quem sou
é nato:
é não tosar
meu sim.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Teima



Todas as naus partiram
Todos os aviões decolaram
e eu continuei vagarosamente trilhando as sendas

Todos os olhos se fecharam
Todos os heróis desfaleceram
e eu continuei cônscio e feroz de atrevimento

Todos os ídolos se ofuscaram
Todos os gurus capitularam
e eu continuei despertando os indolentes sóis

Todas as bandeiras foram recolhidas
Todas as fronteiras foram rechaçadas
e eu continuei erguendo os punhos da vitória

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Parlenda


Não vou mostrar meus olhos tristes, tristes, tristes,
meus olhos tristes de marré, marré deci,
porque eu conservo uma ilusão de que inda existe
um eu melhor, só pra você, que eu construí.

E eu vou cantando, vou dançando, vou seguindo,
até que um dia essa ilusão pesque que é,
que é razão de seu olhar sereno e lindo,
sereno e lindo de marré, marré marré.

sábado, 19 de maio de 2012

Espera


Eu ficava esperando você chegar
na melhor parte das tardes minhas.
E enquanto esperava, eu lia,
cavalgando via personagens
os campos férteis da querença.

Na melhor parte das tardes minhas,
enquanto eu esperava, lia
os encartes dos discos de sempre,
os das músicas já decoradas
e impregnadas de tempo de espera.

Eu ficava esperando você chegar
e, impregnado do tempo de espera,
brincava de arrumar as tralhas,
de sentir a textura dos presentes
que me dei, premiando a paciência.

Na melhor parte das tardes minhas
eu somava capítulos aos sonhos
e novidades às que você traria
quando findassem os anos infinitos
em que ficava esperando você chegar.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dívida



Quem pode julgar qual seria meu mérito
De ter nascido onde nasci, pleno em saúde,
Bem de pais e país, num certo e exato momento
De uma manhã de janeiro propícia e acolhedora?

Quem pode saber que mérito é esse
Que me deu as condições de estudo e interesse
Suficientes para que eu criasse os descaminhos
Que me tiraram do óbvio e provocaram meus dons?

Quem pode entender o exato porquê desse mérito
De ter a vida cruzada por almas maravilhosas
Tão frequentemente e de forma tão solícita
Que até pareciam enviadas de uma intenção de proteger?

Quem pode dar a palavra definitiva
Sobre o que fiz ou não fiz para que houvesse
Um trabalho, uma história, uma produção, uma oportunidade,
Algo a dizer para alguém que quer e pode e tenta ouvir?

E quanto a ser amado? Meu Deus, quem pode pensar
O tamanho do prêmio de sentir na escuridão
A mão firme e etérea a me conduzir ao bem
Sem nada pedir a não ser que eu acredite?

E até isso: os acasos. Escolhas que não fiz, de fados a quem servi.
Quem pode julgar o mérito de meus acasos?
Quem pode compreender a alegria que senti no dia
Em que deixei de acreditar em acasos, mas ainda não os dominava no tino?

Talvez meu único e intransferível mérito seja, em tudo isso,
O sentimento de dívida com a Parte Grande do Mundo
Que me coloca pronto a oferecer-me por inteiro
Na tarefa de ousadia que é embelezar meu tempo.

sábado, 12 de maio de 2012

Deenear



Se abrigaste sempre, brota.
Se gestaste sempre, nasce
sem que seja feita escolha,
sem que ninguém teça a malha:
de dentro pra fora se monta,
de fora pra alhures se mostra,
de fato, de forma, de fala,
de N fatores se vale,
de N alicerces se encampa,
como pura autonomia,
como por autoridade,
se abrigaste, sempre brota,
se gestaste, sempre nasce.

Acerto ortográfico


Os dois que remam, e unidos flutuam,
e fundem-se na intenção da travessia,
quando estacionarem o barco, desembarcarem na areia
e experimentarem os corpos na imensidão da praia,
abrirão os braços não apenas para açambarcar um ao outro,
mas também para colocar na arca da existência
tanto sol, tanto tempo, tanto espaço, tanta natureza:
inventarão o abarço (mais amplo que o abraço) e o aperço (misto de apreço e aperto)
para aquilo que atracar no porto do peito, abençoado,
precioso.

Silêncio profundo


Preciso entender esse silêncio profundo,
já que tenho de vivê-lo.
- Não que a compreensão compense o estranhamento,
mas ela pode transfigurá-lo.
- Não que a transfiguração do estranhamento afete o silêncio;
talvez apenas prepare para sua consistência.
- Não que o silêncio assuma uma consistência:
ele apenas a exerce.
- Não que o silêncio em exercício mire algo,
mas pode minar o ego esparramado pelos ossos.
- Não que seja possível escutar o tremor dos ossos,
mas tenho de pelo menos vivê-lo, nesse silêncio profundo,
estranhamente preciso.

sábado, 5 de maio de 2012

Por ti


Acordar,
mas antes de acordar sonhar contigo,
perfumar as horas do sonho com tua imagem,
perfumar as dobras do corpo com teu suor.

Acordar,
lembrar de ti enquanto o corpo acorda por inteiro,
preparar a refeição de que mais gostas,
como se tua presença fosse iminente,
escovar os dentes e coçar as costas,
jogar água no rosto e lembrar de ti,
enquanto perfumo as dobras do corpo
por sonhar contigo.

Sair
com a pressa de quem acorda por inteiro,
passo a passo na estrada da vida,
quando todas as estradas têm o mesmo objetivo,
como se o horizonte contigo fosse iminente,
saltar da condução no ponto exato,
atravessar faróis, lembrar de ti,
do local exato do teu trabalho,
em frente ao qual montarei vigília,
horas e horas de sonho com tua imagem,
com a ânsia de quem perfuma as dobras do corpo
que têm todas o mesmo objetivo.

Calcular,
mas antes de calcular sonhar contigo,
para que a conta seja exata, e todas as contas
têm o mesmo objetivo, observar
as pessoas que entram e saem e voltam
e dizem bom dia, boa tarde, boa noite,
lembrar de ti em cada sílaba pronunciada
pela boca de cada passante, que vejo em vigília
alimentada pela ânsia que em tua ausência
faz cada dobra do corpo sonhar contigo.

Partir,
abandonar o posto, que tu não passas,
e no local exato do teu trabalho,
que é meu trabalho também, lembrar de ti
enquanto perfumo as dobras do corpo dolorido
com a ânsia das horas e horas do mesmo objetivo,
saltar da condução no ponto exato,
chegar em casa na conta exata das horas e horas,
de tantos que entram e saem e voltam, lembrar de ti,
com a pressa de quem acorda por inteiro.

Mas dormir,
negar à consciência o entendimento do malogro,
as mãos imóveis, o peso em cada músculo e cabelo,
figuras translúcidas que entram e saem e voltam,
enquanto estendo lençóis por horas e horas e horas,
escovar os dentes e coçar as costas,
fazer promessas, ouvir tuas respostas,
fechar a vista e o expediente em cada dobra
do corpo alimentado pela ânsia
de perfumar a existência no momento exato,
no momento exato de sonhar contigo
antes de acordar.

Ao invasor


Começaram a dizer que eu era o que não era,
Uma falação sem nenhum sentido,
Interpretações impensadas e irresponsáveis
Daquilo que eu sequer havia dito,
Explorando lacunas que nem sabia ter deixado.

Depois, transformaram ilações em certezas,
Ajustando fatos a fofocas, distorcendo tudo.

Se não bastasse, ainda angariaram incautos,
Usando a cobertura de discurso coeso para esse bolo de ideias
Aleatórias, maldosas e parcamente fundamentadas.

Violaram meus segredos de Estado de Espírito -
Isso que para mim sempre fora inconcebível - e então
Desisti da postura desarmada da boa-fé.
Agora, no meu quadrado, não pisa quem me pisar.



Gerentes

Pedantes dantes pedintes.
Semblantes antes sem dentes.
Regentes ontem gementes.
Sorventes contra serventes.

As mais possantes dentre as serpentes
são pensantes
e foram gentes.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Essas canções

Essas canções que você sussurra
trazem algo da nossa história,
algo que não se pode projetar
a plenos pulmões para o mundo.

Enquanto o som é leve em sua boca,
o toque de meus dedos também canta,
de forma sussurrada em sua nuca,
essas canções da nossa história.

Antes que o sol se ponha lá fora,
sua cabeça será pluma no meu colo,
e, depois, olhos semiabertos passearão
pelas notas não-musicais dessas canções.

E um dia essas canções serão lembranças
cantadas por novas vozes em tons mais firmes
e bocas convictas de cabeças que não pendem
antes do pôr do sol lá fora.


Bioblablá

Quando um macho alfa,
um outro beta,
e a fêmea gama.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Rispidez


Perguntei a meu pai com voz triste:
- Como pode o silêncio ser áspero
se ele é sempre somente silêncio?

O meu pai respondeu sem palavras:
- Como pode ser feita a pergunta,
se é já feita contendo a resposta?

Tive medo de ser insolente:
- Confiança não é justamente
confirmar coisas que já se sabe?

E em resposta à pergunta não feita:
- Confiança é saber que a colheita
é também filha da tempestade.

Porca festa


Se você fosse um deus onipotente
e descobrisse uma camada semovente
de derrisão na criação arquitetada:
a ação protagonista degradada,
e outros seres vislumbrando a inexistência
por quase sempre enorme displicência
na gestão do que, por vezes, se autogesta;
com tantos presentes, tão porca festa;
tão complexo mundo para um pensar tão raso...
...o que você catastrofaria nesse caso?

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Matemática do sentido


Você pode beber meio copo de água,
comer meia fatia de bolo,
brindar com uma meia-cerveja.
Você pode ter um meio-amigo,
um meio-irmão, dizer uma meia-verdade,
ter mais ou menos confiança,
andar mais ou menos que a metade
ou o terço ou dois terços
da estrada que escolheu.
Você pode ter nenhuma,
pouca,
muita
ou gigantesca
atração ou repulsão, concordância ou discordância, aceitação ou recusa.
Você pode numerar amigos,
numerar façanhas,
numerar vantagens,
colocar na balança ditos e feitos,
fazer a média entre erros e acertos,
fazer o balanço entre avanços e recuos,
calcular o saldo final entre lisuras e vilezas.
Você pode fixar um valor até para seus valores,
criar meios para aumentar o valor dos valores,
criar meios-valores para aumentar os valores,
criar valores para os meios de aumentar os valores.
Mas quando você toca uma vida, meu querido,
você não toca meia vida,
não toca um quarto de vida,
nem três oitavos de vida,
nem dois vinte e dois avos de vida.
Quando você toca uma vida
é ponto final na oração.

Basta uma pomba branca
para dizer: nem toda pomba é cinza.
Basta um sonho vivido para dizer:
nem todo sonho é quimera.
(A intangibilidade do texto artístico
- barreira à fruição total sem todo -
também é própria do texto-vida,
primor de escrita em linhas tortas.)
Não importa a extensão,
o tempo total do percurso,
a feição da meta no horizonte -
quando você cruza um caminho,
vira parte do caminho.

Basta que uma única vez
perdida na história do corpo
um coração tenha batido
mais forte por sua causa
para que toda a vida vivida
tenha cumprido a função de meio
de alcançar um sentido só sentido
por inteiro.

Sinceridade


A primeira das coisas
que lhe vêm à cabeça
não pode ser aquilo
que você pensa,
porque as coisas que você pensa
não podem ser as primeiras
que lhe vêm à cabeça.

Sinceridade não pode ser desonestidade nem doença.
Não é para comprar desavença,
não é para compensar a falta de paciência:
sinceridade é verdade.

Verdade tem consistência.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Níveis


As coisas que ela faz para ser notada, vista
não cabem numa lista, e valem como item.

As coisas que ela faz para que todos queiram vê-la
não fazem dela estrela, que estrelas não existem.

As coisas que ela faz sem ter ninguém por perto
não são de "errado ou certo", não cabe avaliar.

As coisas que ela faz no plano do não-visto
estão muito além disto, em outro patamar.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Ou


Ou você muda, e assume todo trabalho que faz como uma entrega confiante àquilo em que acredita,
Ou você faz como todo mundo, e enche a boca do vento das regalias que acredita ter.

Ou você muda, e atribui dignidade a todo ser humano que lhe rodeia,
Ou você faz como todo mundo, e gaba-se de mandar e humilhar, e ter serventes.

Ou você muda, e compreende todo acontecimento como um pedaço do infinito,
Ou você faz como todo mundo, e direciona o olhar à sua fatia do bolo.

Ou você muda, e deixa seu quarto todo inundado de sol,
Ou você faz como todo mundo, e contrata seguranças armados.

Ou você muda, e dá todo coração à verdade,
Ou você faz como todo mundo, e mente que não tem coração.

Ou você muda algo que reflete no todo,
Ou faz como todo mundo: monólogo em seu quadrado.

Ou você muda seu mundo, ou você só todomunda.
E todomundar é barra, amigo.

Basta olhar à sua volta.

domingo, 8 de abril de 2012

Nachos


consciência comprante
desistência constante
persistência pensante
mercadurante

de repente o rompante
desviante serpente
também posso ser gente
mercadoente

de repente a fissura
quando vejo infinitos
preenchimento e procura
mercadiante

consciência crocante
entre os dentes aflitos
bruto impulso tritura
mercadoritos

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Perguntas sobre o ciúme


o ciúme guia o prudente
ou o prudente é que guia seu ciúme?

o ciúme é desconfiança
ou certeza de que não se deve confiar?

o ciúme é o tempero do amor
ou o destempero do amor-próprio?

o ciúme é sinal de bem querer
ou não querer um mau sinal?

o ciúme é a escolha de uma suspeita
ou a suspeita por uma escolha?

o ciúme é a verdade que eu persigo
ou a insanidade que eu prossigo?

o ciúme vê até nas entrelinhas
ou cega-se até nas evidências?

o ciúme cerca, protege e domina,
ou seca, persegue e elimina?

o ciúme, pouco, cura, muito, mata,
ou, mesmo pouco, dura e se dilata?

o ciúme é sentimento necessário realmente
ou é necessariamente real só pra quem sente?

o ciúme é o descuido de um cuidado apreensivo com o outro
ou o cuidado apreensivo com o descuido do outro?

o ciúme adianta de alguma coisa?
e adianta de alguma coisa dizer isso
para quem tem ciúme?

terça-feira, 27 de março de 2012

Paladar

Quem acha que a vida
é pão pão, queijo queijo,
não tem paladar
p'ra poesia.

Quem acha que a vida
é poesia e paixão
tem mais paladar
para o pão.

Quando a Palavra me erra


olhos óculos aros rodas câmeras lentes faróis são olhos
olhos tijelas copos cinzeiros bolas boliches bocas de fogão
bolinhas de gude de sabão aros de fogo rodamoinhos na mata cataventos e birutas
olhos bocas narizes orifícios de vidro de plástico de carne eletrônicos
por toda a parte olhos são olhos e coisas que nem redondas são nem parecem olhos
também me observam que se vigia assim o mundo protegido dos erros dos desajustados

olhos medem meu corpo,
meus passos, olhos medem,
medem meu brilho, os olhos,
olhos medem minha bunda,
medem, os olhos, meu peito,
medem a saturação
das cores de meu cabelo,
medem o corte das unhas,
o comprimento da barba,
a visibilidade da nódoa
no corte da gola gasta,
a proporção ombro-pernas,
a proporção fala-riso,
a proporção entre o meneio
positivo da cabeça
e a extensão temporal
da sisudez presunçosa
da fala do poderoso,
olhos medem pessoas
como pessoas não fossem,
realismo e psicose,
só não medindo o que some
dentro de um campo invisível,
apartado do espetáculo,
pois a garganta tem cofre,
compartimento, baú
para guardar a Palavra.
Olhos não medem Palavra.
Deixam, se perdem, tonteiam.
Roupas que são de Palavra
vestem o rei que está nu.
Cores que são de Palavra
perdem em definição.
Formas que são de Palavra
vazam contornos do olhar.
Só quando visto Palavras
não sou visto pelos olhos.
Quando as Palavras me erram,
olhos não medem de mim.

Quando a Palavra me erra
meus cabelos não têm fios,
os fios não têm comprimento,
o comprimento não tem cor.
Quando a Palavra me erra,
minha íris não tem tom,
minha pele não tem marca
de fenótipo, ou chicote.
Quando a Palavra me erra
meus braços não têm músculos,
minhas pernas não têm tônus,
minha barriga é sem riscos,
minhas feridas se fecham.
Quando a Palavra me erra
meus passos são sobre as águas
de um rio que já não tem águas,
nem curso, nem consistência,
e que me carrega na fúria
do indefinido sem-rumo.
Quando a Palavra me erra,
minha foto é impossível,
meu retrato é mentiroso,
sou simples caricatura,
em mínimos traços, em linhas,
boneco-palito sem púbis
riscado por lápis sem ponta
no verso da folha amassada
no Ateliê do Criador.
Quando a Palavra me erra,
na autoridade de sombra,
olhos se fazem meus olhos,
sou como quero me ver.

sábado, 24 de março de 2012

Parâmetro


Não preciso dessa faca apontada p'ro meu peito.
Não preciso desse dedo no meio do meu nariz.
Venci a mim mesmo no enterro de minha última quimera.
Lancei a primeira pedra no vidro que me cortou.

Eu moldei a palmatória que castiga as minhas faltas.
Eu preguei meus próprios pulsos na cruz que carrego sozinho.
Sei a dose dos remédios para os tombos que me ferem.
No exorcismo de minhas culpas, só eu sabia o latim.

Cultivo meus próprios calos, regalos da vida são.
Desenho meus sofrimentos nos talhes do desafio.
Não vou dar a cara a tapa, nem o pescoço ao carrasco.
Ninguém pode dar-me outro rumo: sou parâmetro de mim.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Entrevista


Não perguntarei de tuas vaidades,
que elas saltarão gratuitamente
no abismo do sem-sentido.

Não perguntarei de vantagens obtidas e favores,
que não há diferença entre o que é teu por acaso
e o que é teu por mérito que não tens.

Não perguntarei de teus amores,
que não foste obrigado a amar ou aceitar-se amado por ninguém
e nem mesmo a entender isso de uma vez por todas.

Não perguntarei de tuas maldades,
que foram instrumento de tua parte menor
ainda quando pensaste que te engrandecias.

Não perguntarei de tua autoeducação,
que a sede do saber era indicação de rumo,
e não alargamento do ego.

Não perguntarei de tuas desculpas,
que todos as têm, só diferindo
o engenho dos argumentos e o grau de cinismo.

Não perguntarei de teus prazeres mais íntimos,
porque não estive lá quando eles se deram,
nem tu, nem o mundo, nem a consciência.

Não perguntarei de pequenos e grandes desvios,
que o rio da vida tem tantas curvas
quanto há palavras de perdoar.

Não perguntarei de erros e acertos, crenças e ateísmos,
medos e ousadias, verdades e mentiras, castigos e conquistas,
desentendimentos e saberes, aceites, recusas ou indecisões.

Minha entrevista consistirá de uma única pergunta:
que fizeste da chance que te foi dada
de minorar a dor de teu semelhante?

domingo, 18 de março de 2012

Técnica e limite

Depois das angústias, dos enganos,
das dores, dos sustos, dos constrangimentos,
da descoberta de atalhos e esconderijos
em microprazeres e macrojustificativas;

depois do esvaimento das forças,
canalizadas para hipóteses paranóicas;
depois dos arrependimentos recalcados,
definidores de posicionamentos e bravatas;

depois da especialização de mãos e pele,
e sola, e dedinhos dos pés, e nuca,
no recebimento do produto projetado
pela parte da mente que tem vida;

depois de testes e escolhas e trocas e erros
vem o conhecimento técnico do amor,
o projeto matemático do anjo complementar
com garantia de funcionamento ininterrupto,

a máquina de ser quem está lá na hora certa
tornando o cálculo mágica, e a matéria, energia,
o espetáculo de precisão das sensações no mapa
das trilhas e sendas subcutâneas de certo alguém,

máquina que pode durar sempre, permanecendo andróide,
ou pode sair da condição mecânica otimizada
de tecnologia sem história, e ganhar alma, em fase subsequente,
incorporando-se ao espírito senhor de um bem querer.

sábado, 10 de março de 2012

Singularidade


Os servos da Idade Média pertenciam à terra.
Cediam ao senhor feudal o sumo do fruto de seu suor.
Amavam o deus apresentado mediante pagamento de dízimo.
Nunca seriam mais que servos de sua servidão.
E viveram.

Os homens do século XIX desconheciam eletrônicas.
Não possuíam os inimigos da distância: automóvel, telefone.
Sofriam de doenças que hoje são curadas com dois comprimidos.
Sofriam no íntimo como se o sofrimento fosse perspectiva de vida.
E viveram.

Os homens das cavernas dormiam amontoados, famintos e tensos,
porque o uivo do tigre de dentes de sabre era alarme,
e sair para a caça era como sair para um mar misterioso
sem poder determinar os mecanismos dos monstros imaginados.
E viveram.

Se, afrontando o desfavor das condições, ainda persiste
a humanidade, recuperada em cada coração de gente,
que dizer então de formigas, ou plantas, ou algas,  gerações e gerações
que seguraram o estandarte da espécie contra todas as extinções em massa?
E viveram.

A vida é uma interjeição no bruto discurso do tempo.
É ruído tonitruante de queda de grão de areia.
É insignificante com significado.
É verbo valente.
É dom.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Pedra e palito


O que eu dizia?
Na mão esquerda, um palito.
Nada mais, nada menos que um príncipe.
Na mão direita, uma pedrinha mais clara,
que era minha irmã mais velha de vestido.
Na crosta do quintal, meus cotovelos,
minha barriga inteira e minhas pernas estendidas,
tudo sujo de terra, até as roupas,
até o pescoço, até cansar da lenda.

O que eu dizia?
Na mão esquerda, um palito
pedindo a mão da pedrinha em casamento;
na garganta a imitação de voz de macho,
e a fácil feminina inflexão daquele "sim".
Na cabeça, um presente que o futuro preparava,
a casa de morarmos todos nós,
família da noiva, numa cidade em que as ruas
tinham quentura de asfalto e circulação distinta.

O que eu dizia?
Na mão esquerda, um pedaço de madeira
capaz de cutucar tudo no mundo,
e na direita, a pedra pronta
para o arremesso na distância do porvir.
No coração, qualquer vitória,
qualquer possível revelação de última hora,
qualquer milagre que ampliasse para muito
a extensão do encantamento no quintal.

Quem diria...
Na mão esquerda do tempo agora,
um controle remoto; na direita queda,
um aparelho celular; os cotovelos
recostados no sofá; barriga e pernas,
tudo sujo de preguiça; e os palitos
são não mais que meros fósforos; e as pedrinhas,
chuto. Sem cerimônia. Chuto.
As lamas fictícias e inodoras
do aparelho de tevê, quintal sem vida,
mantêm meu coração farto da única pobreza:
aquela em que tudo já foi dito e se acabou.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O caminho


Ah! Tanta beleza
é possível ver!
É possível haver tanta beleza
quando estou sozinho?
Fragmentos de beleza
no deserto do caminho
servem pra quê?

Ah! Tanta certeza
é possível ter!
É possível manter tanta certeza
quando estou sozinho?
Rudimentos de certeza
no infinito do caminho
servem pra quê?


Ah! Que fortaleza
que é possível ser!
É possível descer da fortaleza
quando estou sozinho?
Nas cavernas da tristeza,
esconder-se do caminho
serve pra quê?